Esta terra tem palmeiras, estrelas, amores, sabiá

4 03 2009

Depois de um tempo na Terra dos Papagaios, os nossos “heróis” (como deveria ironizar Pedro Bial… mas não ironiza :( ) se acostumaram ao lugar. Tiveram suas várias mulheres, seus filhos, acostumaram-se ao cardápio local (menos quando o prato principal era gente) e passaram a andar nus, como era o costume. E neste processo, lá vem Jácome Roiz com um poema singelo:

Esta terra tem palmeiras,
onde canta o sabiá
as aves que aqui gorjeiam,
não existem em Portugá.

Este céu tem mais estrelas,
estas almas, menos dores,
estes bosques têm mais vida,
estas gentias, mais amores.

Não permita Deus que eu morra,
em outras terras que não cá;
sem que desfrute dos amores
que não encontro por lá;
sem qu’inda aviste as palmeiras
e cozinhe um sabiá.

Como a maioria de vocês deve ter percebido, esse texto faz referência à Canção do Exílio de Gonçalves Dias. É uma das muitas paráfrase, paródias e estilizações que o texto de um dos principais poetas do nosso Romantismo recebeu desde que foi publicado pela primeira vez, em 1847.

“E o que diabos é paráfrase, paródia e estilização?”, vocês me perguntam. Senta que lá vem o nosso conversê.

Paráfrase, paródia e estilização são as classificações que damos às relações intertextuais (entre textos) intencionais. Isso significa que alguém, ao escrever seu texto, estabelece, propositadamente, uma ponte, um elo, com um texto anterior, que chamamos de texto matriz. Esta relação pode ser harmônica (o texto derivado e o matriz têm ideologias semelhantes) ou desarmônica (o texto derivado diverge do texto matriz).

A relação desarmônica é o que chamamos de paródia. A palavra, que vem do grego afirma que ali existe um contra-canto (para = contra e ode = canto no radical grego). Ou seja, na paródia há uma espécie de reposta ou de texto paralelo ao texto matriz. Muito frequentemente, a paródia é feita com o intuito de ridicularizar, satirizar as idéias do texto original, mas pode servir apenas para apresentar uma idéia contrária, distinta daquela que o original defende. Quase sempre essa contradição é feita através do humor.

A relação harmônica é feita através da paráfrase ou da estilização. São dois processos parecidos e diferentes, então, fiquem atentos.

Na paráfrase existe uma concordância com o texto matriz que faz com que suas idéias e formas sejam reproduzidas e respeitadas. Quando usamos citações para validar um argumento, num texto, fazemos uma paráfrase. Uma espécie de paráfrase são as adaptações. Sabem quando um livro é tido como complexo e alguns especialistas o adaptam para leitores mais jovens? Se ele for fiel (dentro dos limites do possível, para seu objetivo) à forma como o texto original foi concebido, temos uma paráfrase. Se ele usar um estilo próprio, temos a estilização.

Como vocês perceberam, a estilização, portanto, é um tipo especial de paráfrase. Nela a concordância com o texto original se dá em linhas mais gerais, no campo das idéias, mas a forma de expressão dessas idéias é tão particularizada que dizemos que ela há um “estilo” próprio. Um exemplo disso, para quem acompanhou, é a adaptação que a Globo fez do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, no fim do ano passado. O texto original de Machado estava lá, mas ao invés de usar uma adaptação convencional, os elementos visuais todos da obra foram extremamente estilizados. Não entendeu? Ficam mais dois exemplos: a versão para cinema de Romeu e Julieta dirigida por Bazz Luhrmann e estrelada por Leonardo DiCaprio e Claire Danes e uma adaptação, em cordel, de um conto chamado A igreja do Diabo, de Machado de Assis (ele, de novo!). No primeiro caso, há estilização porque o filme fugiu da convenção de uma história de época e foi todo rodado no ambiente urbano cáustico da Cidade do México dos anos 90, com tiroteios no lugar das lustas de espada. No segundo, porque Machado, quando produziu o texto original (que você pode baixar legalmente aqui. Altamente recomendável, por sinal!), fez um texto em prosa e outros autores, entre eles Jorge Filó, “adaptaram”, isto é, estilizaram o conto de machado para a formatação e o vocabulário típico da poesia de cordel nordestina.

Cuidado para não confundirem paráfrase com plágio. O plágio é cópia descarada de um material, sem autorização. Plágio é crime. A paráfrase é uma espécie de reverência a um texto original em um material novo e autêntico.

Entendido o que é paráfrase, paródia e estilização? Então continuemos. Sigam a minha versão :P .

Jácome Roiz constrói lá em Terra Papagalli o que seria a fonte do poema de Dias, já que, tecnicamente, o poema viria antes de 1847. No imaginário da obra, esse texto é que passa a ser o texto matriz. Mas claro que, para nós, o texto matriz é a Canção do Exílio. Independente de quem é o matriz aqui (vamos considerar as duas possibilidades como corretas), o importante é observarmos:

I – Qual é o tipo de relação intertextual entre o texto do personagem de Terra Papagalli e o texto de Gonçalves Dias? Que valores são ressaltados por ambos ou são ressaltados em um e negados no outro?

II – Qual é a importância do texto no ponto da obra em que ele se insere? Qual é seu valor nela?

III – Observem as muitas produções que mantêm diálogo com o texto de Gonçalves Dias (é bem fácil encontrar estes textos aqui na web). Escolham uma e comentem a visão do Brasil que estes autores brasileiros manifestam sobre a nossa própria identidade. Não esqueçam de que é importante comparar o contexto em que cada uma das obras foi produzida.

Beijinhos!








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