“CHAME UM SOCIÓLOGO” ou: o que é o povo brasileiro?

25 05 2009

Continuando nossas discussões sobre o Brasil, essa entidade sempre in, às vezes viável, às vezes não, encontrei este delicioso texto de Célia Tolentino sobre o povo brasileiro, esta entidade tão referida como alegre, vibrante, preguiçosa, metida a esperta, acolhedora e alienada. O que é o povo brasileiro? O que se percebe como sendo o povo brasileiro? Por que assim e não de outro jeito?

Curtam a leitura do texto e se joguem nas questões que ele levanta.

PS. Não, postar aqui não é participar do fórum de As intermitências da morte. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. 😛

De tempos em tempos precisamos repensar sobre esta questão: quem é o povo brasileiro, essa entidade enigmática? Principalmente em um ano eleitoral importante como este, em que de um lado estão aqueles que veem os problemas do Brasil, não somente de caráter político, como um resultado da falta de capacidade crítica do povo brasileiro e de outro, aqueles que acreditam que a população é sempre a vítima do nosso atraso histórico, do abandono, da falta de educação e de informação.

A ideia de que o brasileiro é sempre um sujeito diferente daquele que fala é antiga no Brasil. O povo é o outro e nunca nós mesmos. E esse povo, que é o outro, é sempre o ignorante, o inculto, o amarfanhado, o pobre, o analfabeto, o distante. Em 1907, a revista Fon Fon! trazia em um de seus exemplares uma caricatura chamadade Zé Povo. Tal como viríamos a usar esta expressão até hoje, o Zé Povo (ou Zé Povinho) era o sujeito mal vestido, magro e desengonçado. Contra ele estava o mundo da política ou o dos grã-finos. A caricatura da Fon Fon! fazia uma crítica mordaz, sugerindo que, enquanto os políticos e os elegantes (que acabavam sendo da mesma elite) se divertiam, o Zé Povo pagava as contas, trabalhava nas repartições públicas e sofria com sua vidinha modorrenta. […]

O mesmo acontece anos mais tarde quando, em 1914, Monteiro Lobato chamou o homem pobre rural de Jeca Tatu. Segundo o escritor, Jeca era o protótipo do povo brasileiro que, acocorado sobre os calcanhares, seria incapaz de se levantar para encarar o trabalho disciplinado e a modernização do País. As duas coisas ficariam a cargo dos imigrantes europeus que estavam ocupando os melhores postos de trabalho e forjando o progresso.

Nos anos 30, a discussão volta ao cenário, e a grande preocupação é com o caráter da nação brasileira. Artistas, escritores, sociólogos buscam uma definição, e as manifestações culturais populares são recolhidas para fazer parte da música, da dança, da literatura. O povo brasileiro passa a ser ingrediente fundamental na constituição da nação, e Getúlio Vargas, inaugurando o chamado populismo, fala em nome do povo e se define como o pai dos pobres, isto é, do povo, para o povo. Mas quem era ele? O índio, o nordestino, o nortista, o negro, o pobre, o caboclo, o operário, o homem rural?

Ao governo populista não interessava o trabalhador organizado, mas “este povo” em abstrato, sujeito crente e passivo, protegido e reprimido pelo Estado. A discussão volta com força nos anos 50 e, em plena era desenvolvimentista, quando o Brasil começa o processo de industrialização e urbanização mais agressivo, o JecaTatu é retomado pelo cinema e Mazzaropi faz muito sucesso. A crítica, generosa, escrevia que Mazzaropi levava o verdadeiro povo brasileiro às telas. Mas, podemos perguntar outra vez: quem se identifica com o Jeca Tatu de Mazzaropi? Provavelmente ninguém deseja tal identidade para si. Portanto, o que podemos dizer, a partir destes poucos exemplos, é que a identidade nacional ou a condição de povo brasileiro é sempre atribuída a um sujeito que não somos nós. Deste modo, reaparece sempre a ideia de que de um lado existe uma elite esclarecida, proprietária, bem nascida, educada e cosmopolita, cidadã do mundo e capaz de votar bem, é claro. E de outro, o povo, o Zé Povo, o inculto, o pobre, o sem eira nem beira, o brasileiro. Quem seria ele? Ora o índio, ora o caboclo, ora o mulato, ora o cangaceiro, ora o Jeca, ora o favelado, ora o analfabeto, ora os descamisados. Mas o fato é que o povo é sempre o outro (não sou eu, aquele que fala), e este outro é quase sempre pintado como alguém cuja ignorância o faz objeto de riso, de pena, de rejeição, eleitor sem consciência.

Com este deslocamento da identidade nacional, acabamos sempre por delegar ao outro a obrigação de comportar-se como povo. No entanto, se este sujeito não é apreensível, não é identificável, então acabamos por construir uma identidade abstrata que não pertence a ninguém. Daí para crer que o povo vota errado — mas eu não — é um passo. Sem dúvida, existe este grande desafio para a sociedade brasileira, o de enxergar-se como tal, e isto não quer dizer homogeneidade, nem ausência de conflitos sociais e de classes. Mas quer dizer que pertencer à condição de povo brasileiro significa ter alguma responsabilidade pelo coletivo, sair da individualidade consumista que nos assola e começar a pensar que nós é que fazemos a História. Enquanto isso não acontecer, continuaremos procurando pelo tal do povo brasileiro, este outro impalpável.

TOLENTINO, Célia. Chame um sociólogo. Sociologia: Ciência & Vida, São Paulo: Escala, ano 1, n.3, 2007. p. 70-71.

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2 responses

23 06 2009
Renato Machado Farias

Individualizar uma nação pelo comportamento de uma só pessoa não é certo por que ninguem é igual. Além de que o Brasil é um país multicultural. A diversidade é tanta por conta da “mistura” que é o povo brasileiro. Na minha opinião clichê só serve para criar preconceitos entre nosso povo e outros povos.

Tive a curiosidade de pesquisar o tal “Zé Povo” e olha o que eu encontrei este texto:

Muitos que nós conhecemos
Chamam porco ao Zé Povo;
De porcaria, sabemos,
Estão cheios que nem ovo!

As mãos limpas julgam ter
Vampiros-camaleões
O verniz é p’ra esconder
Que têm unhas de ladrões!

O Zé na lama labora
Pode ter lama na mão;
Pior, digo eu agora,
É … lama… no coração!!!

De sangue estão bem cobertas
As mãos de alguns sanguinários!
Essas mãos assim abertas
Fecham-se… e roubam salários!

Circulam na alta roda
Notas sujas, com fartura,
Limpar o povo é já moda
E moda de alta costura!

Se o Povo abrir as janelas
Da alma, de par em par…
Melhor verá as gamelas
E porcos a chafurdar!…

30 07 2009
ulisses batista de oliveira salzano ferraz

a A diversidade de raça sempre foi, uma caracteristica característica, presente nos nossos dias. uma Uma parte da sociedade sempre foi tratada, com uma certa ignorância por nós, por acreditarmos, que só uma parte da população comanda o brasil Brasil, mas na verdade a sociedade é comandada por todos nós, que a construimos construímos dia pós dia.

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