Realismo fantástico?

6 07 2009

Garimpando no Google o conceito de realismo fantástico, é comum encontrar algumas impropriedades, mas num site sobre Murilo Rubião, autor conhecido por seus contos de teor fantástico, vi esta definição:

Murilo Rubião

Murilo Rubião

“Entende-se por literatura fantástica (ou realismo fantástico) aquelas narrativas em que ocorrem fatos inconcebíveis, inexplicáveis, surreais e que produzem uma grande sensação de estranhamento nas pessoas. Normalmente, esta atmosfera de irrealidade tem uma dimensão alegórica, ou seja, por meio do absurdo e do inverossímil, ela alude à realidade concreta da existência, cabendo ao leitor escolher um sentido realista para eventos aparentemente sobrenaturais.”

Disponível em: http://educaterra.terra.com.br/literatura/litcont/2004/10/04/000.htm

Achei muito boa a definição, principalmente ao refletir-se sobre a dimensão alegórica do realismo fantástico (para uma boa definição de “alegoria”, veja este artigo aqui). De fato, é comum – embora não essencial – que se note em narrativas fantásticas uma discussão que vai além do sobrenatural que fica na superfície da trama.

Neste momento podemos lançar algumas perguntas: seria “As intermitencias da Morte”, de Saramago, uma narrativa fantástica? Por quê? Indo mais além: é possível perceber alguma dimensão alegórica? Se sim, quais seriam as grandes metáforas presentes na narrativa que remetem a nossa realidade?

Difícil? Viver é difícil!

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As intermitências da morte e a função social da literatura

22 06 2009

Embora um autor não tenha a menor obrigação de fazer com que sua obra sirva como instrumento de denúncia e de crítica social, esta é uma das funções que a literatura adquiriu, ao longo do tempo. Com Saramago não é diferente. Seus romances mais exaltados pela crítica, como Ensaio sobre a cegueira e Ensaio sobre a lucidez, exalam uma visão muito acurada dos elementos que compõem a nossa sociedade. Tão acurada que, sejam estes elementos segmentos sociais, sejam eles atitudes humanas, acabamos, através dos olhos de Saramago, enxergando o nosso mundo com olhos mais limpos: percebemos mais claramente tanto o cinismo, a mesquinhez, os jogos de interesses, como também, em casos mais raros, a solidariedade, o amor, o altruísmo.

Maria Isabella muito bem lembrou, num comentário no tópico Ensaio, novela, conto, romance?, que Saramago faz uma dura crítica à sociedade em As intermitências da morte através do relato das reações dos diversos setores sociais. Então, vamos discutir:

1 – Qual dos vários setores sociais que foram postos em berlinda com a “greve” da morte foi criticado mais duramente por Saramago? Justifiquem!

2 – Qual crítica à sociedade e ao ser humano feita pelo livro mais incomodou você? Por quê?





Epitáfio e haikai – exercite sua criatividade

18 06 2009

Já que da morte não escaparemos e parece que a vida é melhor com ela do que sem (difícil pensar assim antes de ler As intermitências, não é mesmo?), o melhor é aprender a conviver com ela. Saber que um dia não estaremos mais aqui é (olha que coisa mais barroca) nos responsabilizarmos por aproveitar o nosso tempo do melhor jeito. O que é esse melhor jeito, a melhor maneira de viver, aí é uma outra conversa. Talvez eu, vocês e o restante da humanidade inteira nunca consigamos descobrir uma resposta para isto. Mas não podemos deixar de perguntar, não é mesmo?

Por isso eu quero fazer com vocês um exercício de imaginação e de criatividade. Como vocês querem ser lembrados? Que marcas na vida das outras pessoas e no mundo vocês querem deixar? Hoje, agora, como vocês pensam que vocês devem viver a vida que vocês têm disponível para vocês?

Os epitáfios são as inscrições que parentes ou amigos deixam nos túmulos de seus entes queridos. Neles costuma-se destacar as características mais marcantes da pessoa que se foi. Alguns epitáfios são citações de versículos bíblicos, outros de declarações filosóficas ou de versos.

Que palavras vocês gostariam que fossem usadas para assinalar quem vocês foram na Terra? Para construir o epitáfio de vocês, vocês poderão lançar mão de duas coisas:

1 – Uma citação (pode ser bíblica, poética, filosófica, não importa)

2 – Um haikai feito por vocês mesmos.

Não sabe o que é um haikai? Eu explico!

Haikai é uma estrutura poética japonesa originária do século XVI. Os haikais são poemas de três versos e 17 sílabas poéticas (geralmente distribuídas em 5-7-5). De uma maneira geral a temática de um haikai é uma impressão filosófica do eu lírico sobre um fenômeno natural, uma ação, uma imagem ou um fato da vida. Assim, o haikai é uma espécie de olhar fotográfico. Na tradição japonesa, os haikais são sóbrios e pouco ou nada apresentam sobre os elementos internos do eu lírico. Modernamente, os vários poetas que fizeram uso do haikai (aqui no Brasil, por exemplo) minimizaram este caráter objetivo do haikai, dando conotações emotivas a ele. Veja alguns exemplos:

pássaro preto
tem irmão na gaiola:
pássaro preso
(Carlos Seabra)

Dia de Finados
Formigas carregam
Pétalas que caem.
(Jorge Lescano)

Pintou estrelas no muro
e teve o céu ao
alcance das mãos
(Helena Kolody)

Detalhe: o melhor haikai, a ser escolhido por júri especializado, receberá uma premiação especial surpresa quando encerrarmos o fórum.






Um livro, muitos olhares – a importância do projeto gráfico

30 05 2009

Não apenas resenhas, artigos, críticas revelam os olhares diversos sobre uma obra. A forma como as diversas editoras divulgam um autor nos mais diversos países ou num mesmo país, mas em diferentes épocas, também faz isto. O projeto gráfico dado a um livro é um olhar sobre ele, o qual revela não só uma interpretação da obra mas também uma expectativa sobre os seus possíveis leitores. A capa deve ter ilustrações, fotos, gravuras? Que elementos estas imagens devem apresentar? Como eles se ligam a obra? Que expectativas no leitor eles geram? Que cores e que fontes devem ser usadas para apresentar o título? Qual o posicionamento deve se dar a ele? O título deve vir antes ou depois do nome do autor? Se o nome do autor está em destaque ele chama mais a atenção do leitor?

A capa de um livro é o primeiro contato do leitor com a obra (se ele não leu as resenhas e artigos sobre ela, claro). É a primeira arma de sedução que a editora tem para vender seu produto, e que o artista tem para despertar o interesse pela sua obra. Observem as capas que as diversas editoras responsáveis pela publicação de Saramago construíram para As intermitências da morte.

Capa da Editora Caminho

Capa da Editora Caminho, que publica Saramago em Portugal.

Capa da edição atual da Editora CaminhoCapa atual da Editora Caminho

Capa da Editora LeyaCapa atual da Editora Leya, também de Portugal

Capa da Editora AleaguaraCapa da Editora Aleaguara, México

Capa da Editora Houghton Mifflin Harcourt (HMH)Capa da Editora Houghton Mifflin Harcourt (HMH), EUA.

A partir destas capas, analisem:

1 – Que diferença informações se julgou importante que a capa apresentasse ao leitor sobre a obra? Que elemento denota esta importância?

2 – Algum elemento foi constante nas capas das diversas editoras (do mesmo país e/ou de países diferentes)? Qual a relevância dele na obra?

3 – Que capa(s) vocês julgam que melhor apresenta a obra de Saramago para o leitor e por quê?





A (falta) de identidade dos personagens

25 05 2009

Vocês devem ter notado. Ninguém tem nome em As intermitências da morte. Ninguém. Temos o primeiro-ministor, o cardeal, a filha, o genro, a tia solteira, o violoncelista, a máphia, a morte, deus. Todos denominados por papéis sociais, com letras minúsculas. Esta é uma constante na obra de Saramago. O Ensaio sobre a cegueira tem exatamente o mesmo recurso: a mulher do médico, o médico, o cão, o soldado. Ninguém tem nome e mesmo personagens que são entidades abstratas às quais nos referimos com a inicial maiúscula são referidos com as letras minúsculas. E, é claro, isto é abstolutamente intencional. Porque será? O que alteraria na obra Saramago identificar seus personagens com nomes? Qual a diferença entre referir-se com deus e morte e Deus e Morte? Que leitura vocês fazem disto?





Expectativa e ressignificação: as epígrafes

21 05 2009

Embora todo texto literário, do mais conciso poema ao mais longo romance, suporte uma epígrafe, não é todo autor de texto literário que escolhe atribuir uma a sua obra. A epígrafe tem seu espaço determinado quando o autor deseja criar expectativas no leitor a respeito do que vai ler. Nela ele não só faz a citação de alguma passagem de outro texto cuja ideia central, supõe-se, será desenvolvida posteriormente, no seu próprio material, como ele dá uma ideia ao leitor de seu universo de leitura: o que ele já leu, quais suas fonte. Ao fim da leitura, quando voltamos à epígrafe, podemos confirmar a expectativa criada por ela sobre o livro ou ressignificá-la (como fazemos com um título aberto), lendo-a com uma nova interpretação, por uma relação que ela trava com o livro que não estava evidente, num primeiro momento.

Em As intermitências da morte Saramago escolhe criar no leitor esta expectativa, usando duas epígrafes para o texto: a citação do Livro das Previsões e a de Wittgenstein. O primeiro é uma obra inventada, um gosto particular de Saramago, que se repetiu em outras de suas obras: em Ensaio sobre a Cegueira temos o Livro dos Conselhos; em Todos os Nomes, o Livro das Evidências; em Ensaio sobre a Lucidez, o Livro das Vozes; no recentíssimo A viagem do Elefante, o Livro dos Intinerários. O segundo é uma citação do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein.

Debrucem-se, agora, sobre as epígrafes do livro. Que expectativa provocam no leitor? Essa expectativa é confirmada ou não? Qual a significância, qual a relação que têm com o livro? Com que objetivo Saramago inventou a epígrafe do Livro das Previsões e a lançou em As intermitências? Quem foi Wittgenstein, o que ele pensava sobre a condição humana? Que expectativas o leitor que já sabe quem é Wittgenstein tem do livro ao ler sua epígrafe?





Uma desautomatização da leitura

18 05 2009

Um grande desafio de ler Saramago é o processo de desautomatização do processo de leitura que ele desafia o leitor a fazer. Seus parágrafos gigantescos e os períodos mais colossais ainda, em extensão, são um marca registrada do autor, que prefere encadear as ideias em longuíssimas frases complexas pontuadas apenas por vírgula. Até mesmo nos diálogos ele opta por esta forma de escrever.

Se esta marca é tão insistente da obra do autor luso, não está ali por acaso. Saramago pretende um efeito com esta desautomatização, este desafio de fazer o leitor mais ativo na construção do texto. Por isso, o nosso desafio aqui se dá em duas etapas:

  1. Vocês devem escolher uma passagem da obra em que este desafio da linguagem se manifestou e organizar a pontuação como convencionalmente fazemos.
  2. A partir daí, reflita: que efeitos são perdidos com a pontuação convencional? O que a frase longa, pontuada apenas com vírgulas, conseguiu gerar no processo de leitura que a pontuação convencional não consegue?

Não tenham medo de errar! Estamos aqui para debater!