É uma resenha

19 10 2009

A resenha crítica é um gênero bastante difundido em revistas, jornais, blogs e portais da internet. Segundo Abaurre (2006), trata-se de um gênero discursivo que

“combina a apresentação das características essenciais de uma dada obra (filme, livro, peça de teatro etc.) com comentários e avaliações críticas sobre sua qualidade.

Em nossas aulas de Língua Portuguesa apresentamos a estrutura recorrente das resenhas, bem como analisamos os processos de argumentação que os resenhistas costumam utilizar em suas críticas. Neste tópico, os grupos (máximo 3 alunos) devem publicar uma resenha sobre um filme, um livro ou um CD de sua prefência. Vamos lá?





Realismo fantástico?

6 07 2009

Garimpando no Google o conceito de realismo fantástico, é comum encontrar algumas impropriedades, mas num site sobre Murilo Rubião, autor conhecido por seus contos de teor fantástico, vi esta definição:

Murilo Rubião

Murilo Rubião

“Entende-se por literatura fantástica (ou realismo fantástico) aquelas narrativas em que ocorrem fatos inconcebíveis, inexplicáveis, surreais e que produzem uma grande sensação de estranhamento nas pessoas. Normalmente, esta atmosfera de irrealidade tem uma dimensão alegórica, ou seja, por meio do absurdo e do inverossímil, ela alude à realidade concreta da existência, cabendo ao leitor escolher um sentido realista para eventos aparentemente sobrenaturais.”

Disponível em: http://educaterra.terra.com.br/literatura/litcont/2004/10/04/000.htm

Achei muito boa a definição, principalmente ao refletir-se sobre a dimensão alegórica do realismo fantástico (para uma boa definição de “alegoria”, veja este artigo aqui). De fato, é comum – embora não essencial – que se note em narrativas fantásticas uma discussão que vai além do sobrenatural que fica na superfície da trama.

Neste momento podemos lançar algumas perguntas: seria “As intermitencias da Morte”, de Saramago, uma narrativa fantástica? Por quê? Indo mais além: é possível perceber alguma dimensão alegórica? Se sim, quais seriam as grandes metáforas presentes na narrativa que remetem a nossa realidade?

Difícil? Viver é difícil!





As intermitências da morte e a função social da literatura

22 06 2009

Embora um autor não tenha a menor obrigação de fazer com que sua obra sirva como instrumento de denúncia e de crítica social, esta é uma das funções que a literatura adquiriu, ao longo do tempo. Com Saramago não é diferente. Seus romances mais exaltados pela crítica, como Ensaio sobre a cegueira e Ensaio sobre a lucidez, exalam uma visão muito acurada dos elementos que compõem a nossa sociedade. Tão acurada que, sejam estes elementos segmentos sociais, sejam eles atitudes humanas, acabamos, através dos olhos de Saramago, enxergando o nosso mundo com olhos mais limpos: percebemos mais claramente tanto o cinismo, a mesquinhez, os jogos de interesses, como também, em casos mais raros, a solidariedade, o amor, o altruísmo.

Maria Isabella muito bem lembrou, num comentário no tópico Ensaio, novela, conto, romance?, que Saramago faz uma dura crítica à sociedade em As intermitências da morte através do relato das reações dos diversos setores sociais. Então, vamos discutir:

1 – Qual dos vários setores sociais que foram postos em berlinda com a “greve” da morte foi criticado mais duramente por Saramago? Justifiquem!

2 – Qual crítica à sociedade e ao ser humano feita pelo livro mais incomodou você? Por quê?





Epitáfio e haikai – exercite sua criatividade

18 06 2009

Já que da morte não escaparemos e parece que a vida é melhor com ela do que sem (difícil pensar assim antes de ler As intermitências, não é mesmo?), o melhor é aprender a conviver com ela. Saber que um dia não estaremos mais aqui é (olha que coisa mais barroca) nos responsabilizarmos por aproveitar o nosso tempo do melhor jeito. O que é esse melhor jeito, a melhor maneira de viver, aí é uma outra conversa. Talvez eu, vocês e o restante da humanidade inteira nunca consigamos descobrir uma resposta para isto. Mas não podemos deixar de perguntar, não é mesmo?

Por isso eu quero fazer com vocês um exercício de imaginação e de criatividade. Como vocês querem ser lembrados? Que marcas na vida das outras pessoas e no mundo vocês querem deixar? Hoje, agora, como vocês pensam que vocês devem viver a vida que vocês têm disponível para vocês?

Os epitáfios são as inscrições que parentes ou amigos deixam nos túmulos de seus entes queridos. Neles costuma-se destacar as características mais marcantes da pessoa que se foi. Alguns epitáfios são citações de versículos bíblicos, outros de declarações filosóficas ou de versos.

Que palavras vocês gostariam que fossem usadas para assinalar quem vocês foram na Terra? Para construir o epitáfio de vocês, vocês poderão lançar mão de duas coisas:

1 – Uma citação (pode ser bíblica, poética, filosófica, não importa)

2 – Um haikai feito por vocês mesmos.

Não sabe o que é um haikai? Eu explico!

Haikai é uma estrutura poética japonesa originária do século XVI. Os haikais são poemas de três versos e 17 sílabas poéticas (geralmente distribuídas em 5-7-5). De uma maneira geral a temática de um haikai é uma impressão filosófica do eu lírico sobre um fenômeno natural, uma ação, uma imagem ou um fato da vida. Assim, o haikai é uma espécie de olhar fotográfico. Na tradição japonesa, os haikais são sóbrios e pouco ou nada apresentam sobre os elementos internos do eu lírico. Modernamente, os vários poetas que fizeram uso do haikai (aqui no Brasil, por exemplo) minimizaram este caráter objetivo do haikai, dando conotações emotivas a ele. Veja alguns exemplos:

pássaro preto
tem irmão na gaiola:
pássaro preso
(Carlos Seabra)

Dia de Finados
Formigas carregam
Pétalas que caem.
(Jorge Lescano)

Pintou estrelas no muro
e teve o céu ao
alcance das mãos
(Helena Kolody)

Detalhe: o melhor haikai, a ser escolhido por júri especializado, receberá uma premiação especial surpresa quando encerrarmos o fórum.






Um livro, muitos olhares – a importância do projeto gráfico

30 05 2009

Não apenas resenhas, artigos, críticas revelam os olhares diversos sobre uma obra. A forma como as diversas editoras divulgam um autor nos mais diversos países ou num mesmo país, mas em diferentes épocas, também faz isto. O projeto gráfico dado a um livro é um olhar sobre ele, o qual revela não só uma interpretação da obra mas também uma expectativa sobre os seus possíveis leitores. A capa deve ter ilustrações, fotos, gravuras? Que elementos estas imagens devem apresentar? Como eles se ligam a obra? Que expectativas no leitor eles geram? Que cores e que fontes devem ser usadas para apresentar o título? Qual o posicionamento deve se dar a ele? O título deve vir antes ou depois do nome do autor? Se o nome do autor está em destaque ele chama mais a atenção do leitor?

A capa de um livro é o primeiro contato do leitor com a obra (se ele não leu as resenhas e artigos sobre ela, claro). É a primeira arma de sedução que a editora tem para vender seu produto, e que o artista tem para despertar o interesse pela sua obra. Observem as capas que as diversas editoras responsáveis pela publicação de Saramago construíram para As intermitências da morte.

Capa da Editora Caminho

Capa da Editora Caminho, que publica Saramago em Portugal.

Capa da edição atual da Editora CaminhoCapa atual da Editora Caminho

Capa da Editora LeyaCapa atual da Editora Leya, também de Portugal

Capa da Editora AleaguaraCapa da Editora Aleaguara, México

Capa da Editora Houghton Mifflin Harcourt (HMH)Capa da Editora Houghton Mifflin Harcourt (HMH), EUA.

A partir destas capas, analisem:

1 – Que diferença informações se julgou importante que a capa apresentasse ao leitor sobre a obra? Que elemento denota esta importância?

2 – Algum elemento foi constante nas capas das diversas editoras (do mesmo país e/ou de países diferentes)? Qual a relevância dele na obra?

3 – Que capa(s) vocês julgam que melhor apresenta a obra de Saramago para o leitor e por quê?





A (falta) de identidade dos personagens

25 05 2009

Vocês devem ter notado. Ninguém tem nome em As intermitências da morte. Ninguém. Temos o primeiro-ministor, o cardeal, a filha, o genro, a tia solteira, o violoncelista, a máphia, a morte, deus. Todos denominados por papéis sociais, com letras minúsculas. Esta é uma constante na obra de Saramago. O Ensaio sobre a cegueira tem exatamente o mesmo recurso: a mulher do médico, o médico, o cão, o soldado. Ninguém tem nome e mesmo personagens que são entidades abstratas às quais nos referimos com a inicial maiúscula são referidos com as letras minúsculas. E, é claro, isto é abstolutamente intencional. Porque será? O que alteraria na obra Saramago identificar seus personagens com nomes? Qual a diferença entre referir-se com deus e morte e Deus e Morte? Que leitura vocês fazem disto?





“CHAME UM SOCIÓLOGO” ou: o que é o povo brasileiro?

25 05 2009

Continuando nossas discussões sobre o Brasil, essa entidade sempre in, às vezes viável, às vezes não, encontrei este delicioso texto de Célia Tolentino sobre o povo brasileiro, esta entidade tão referida como alegre, vibrante, preguiçosa, metida a esperta, acolhedora e alienada. O que é o povo brasileiro? O que se percebe como sendo o povo brasileiro? Por que assim e não de outro jeito?

Curtam a leitura do texto e se joguem nas questões que ele levanta.

PS. Não, postar aqui não é participar do fórum de As intermitências da morte. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. 😛

De tempos em tempos precisamos repensar sobre esta questão: quem é o povo brasileiro, essa entidade enigmática? Principalmente em um ano eleitoral importante como este, em que de um lado estão aqueles que veem os problemas do Brasil, não somente de caráter político, como um resultado da falta de capacidade crítica do povo brasileiro e de outro, aqueles que acreditam que a população é sempre a vítima do nosso atraso histórico, do abandono, da falta de educação e de informação.

A ideia de que o brasileiro é sempre um sujeito diferente daquele que fala é antiga no Brasil. O povo é o outro e nunca nós mesmos. E esse povo, que é o outro, é sempre o ignorante, o inculto, o amarfanhado, o pobre, o analfabeto, o distante. Em 1907, a revista Fon Fon! trazia em um de seus exemplares uma caricatura chamadade Zé Povo. Tal como viríamos a usar esta expressão até hoje, o Zé Povo (ou Zé Povinho) era o sujeito mal vestido, magro e desengonçado. Contra ele estava o mundo da política ou o dos grã-finos. A caricatura da Fon Fon! fazia uma crítica mordaz, sugerindo que, enquanto os políticos e os elegantes (que acabavam sendo da mesma elite) se divertiam, o Zé Povo pagava as contas, trabalhava nas repartições públicas e sofria com sua vidinha modorrenta. […]

O mesmo acontece anos mais tarde quando, em 1914, Monteiro Lobato chamou o homem pobre rural de Jeca Tatu. Segundo o escritor, Jeca era o protótipo do povo brasileiro que, acocorado sobre os calcanhares, seria incapaz de se levantar para encarar o trabalho disciplinado e a modernização do País. As duas coisas ficariam a cargo dos imigrantes europeus que estavam ocupando os melhores postos de trabalho e forjando o progresso.

Nos anos 30, a discussão volta ao cenário, e a grande preocupação é com o caráter da nação brasileira. Artistas, escritores, sociólogos buscam uma definição, e as manifestações culturais populares são recolhidas para fazer parte da música, da dança, da literatura. O povo brasileiro passa a ser ingrediente fundamental na constituição da nação, e Getúlio Vargas, inaugurando o chamado populismo, fala em nome do povo e se define como o pai dos pobres, isto é, do povo, para o povo. Mas quem era ele? O índio, o nordestino, o nortista, o negro, o pobre, o caboclo, o operário, o homem rural?

Ao governo populista não interessava o trabalhador organizado, mas “este povo” em abstrato, sujeito crente e passivo, protegido e reprimido pelo Estado. A discussão volta com força nos anos 50 e, em plena era desenvolvimentista, quando o Brasil começa o processo de industrialização e urbanização mais agressivo, o JecaTatu é retomado pelo cinema e Mazzaropi faz muito sucesso. A crítica, generosa, escrevia que Mazzaropi levava o verdadeiro povo brasileiro às telas. Mas, podemos perguntar outra vez: quem se identifica com o Jeca Tatu de Mazzaropi? Provavelmente ninguém deseja tal identidade para si. Portanto, o que podemos dizer, a partir destes poucos exemplos, é que a identidade nacional ou a condição de povo brasileiro é sempre atribuída a um sujeito que não somos nós. Deste modo, reaparece sempre a ideia de que de um lado existe uma elite esclarecida, proprietária, bem nascida, educada e cosmopolita, cidadã do mundo e capaz de votar bem, é claro. E de outro, o povo, o Zé Povo, o inculto, o pobre, o sem eira nem beira, o brasileiro. Quem seria ele? Ora o índio, ora o caboclo, ora o mulato, ora o cangaceiro, ora o Jeca, ora o favelado, ora o analfabeto, ora os descamisados. Mas o fato é que o povo é sempre o outro (não sou eu, aquele que fala), e este outro é quase sempre pintado como alguém cuja ignorância o faz objeto de riso, de pena, de rejeição, eleitor sem consciência.

Com este deslocamento da identidade nacional, acabamos sempre por delegar ao outro a obrigação de comportar-se como povo. No entanto, se este sujeito não é apreensível, não é identificável, então acabamos por construir uma identidade abstrata que não pertence a ninguém. Daí para crer que o povo vota errado — mas eu não — é um passo. Sem dúvida, existe este grande desafio para a sociedade brasileira, o de enxergar-se como tal, e isto não quer dizer homogeneidade, nem ausência de conflitos sociais e de classes. Mas quer dizer que pertencer à condição de povo brasileiro significa ter alguma responsabilidade pelo coletivo, sair da individualidade consumista que nos assola e começar a pensar que nós é que fazemos a História. Enquanto isso não acontecer, continuaremos procurando pelo tal do povo brasileiro, este outro impalpável.

TOLENTINO, Célia. Chame um sociólogo. Sociologia: Ciência & Vida, São Paulo: Escala, ano 1, n.3, 2007. p. 70-71.